Eu me arrumando para Angra, as meninas cobrando horário no grupo, e o email chega. Xamã premiado em Los Angeles. Parei com a mala aberta, li de novo e pensei: esse menino não está brincando de ator.
O prêmio é de Melhor Ator Coadjuvante na 19ª edição do LABRFF, o festival de cinema brasileiro que acontece todo ano em Los Angeles. O filme é Cinco Tipos de Medo, de Bruno Bini, em que Xamã vive o Sapinho, um traficante da periferia de Cuiabá. E aqui vem o detalhe que interessa: foi a estreia dele no cinema. Primeiro filme, dois troféus.
O primeiro veio em agosto de 2025, no Festival de Gramado. Xamã ganhou o Kikito de Ator Coadjuvante numa noite em que o filme levou tudo: Melhor Filme, Roteiro e Montagem. Quem estava lá conta que ele chorou e falou em sonho realizado. Em abril deste ano o filme chegou aos cinemas, e agora o Sapinho atravessou a fronteira.

Agora, a parte que eu queria mesmo dizer. Olha os papéis que deram ao Xamã até hoje. O Naldinho de Justiça 2, parceiro de crime. O Damião de Renascer, o capanga misterioso, na primeira novela dele, já no horário nobre. O Bagdá de Três Graças, um homem tentando largar o tráfico. E o Sapinho. Era a receita certa para virar o rapper que só faz bandido. Não virou.
E não virou porque o Xamã faz uma coisa difícil: ele não interpreta o crime, interpreta o medo. O Damião assustava pelo silêncio, não pelo grito. O Bagdá era um cara cansado de ser o que todo mundo esperava dele. Tem uma sensibilidade ali que não se aprende em workshop. O homem por trás desses personagens escuta, segura o olhar, deixa a cena respirar. Ator de verdade sabe que o mais difícil é não fazer nada e mesmo assim prender a gente.
Teve um tempo em que o nome dele chegava à coluna mais pela vida amorosa do que pelo trabalho. Essa fase passou. Hoje quem pauta o Xamã é o que ele entrega na tela, e o que ele entrega rendeu uma prateleira que muito ator de carreira longa não tem.
O rapper de Malvadão saiu da bolha. E agora tem dois troféus para provar que não foi sorte.




