Em entrevista à Jovem Pan Business, William Lopez, diretor comercial da Sianfer, recicladora nacional de aço inoxidável e ligas especiais, explicou como funciona o mercado brasileiro de sucata metálica. Para ele, a falta de conhecimento técnico sobre a composição dos materiais é o que mais destrói valor no setor, muito antes de qualquer variação de câmbio ou de demanda.
O consumo de aço no Brasil cresceu em 2025 puxado sobretudo pelos longos, usados na construção civil. Por trás do número está o déficit habitacional, que sustenta a demanda mesmo com a Selic elevada, que pressiona o setor. O reflexo aparece no tamanho dos imóveis: apartamentos que antes tinham de 70 a 100 metros quadrados hoje raramente passam de 35. Já o aço plano, ligado à indústria automotiva, sentiu mais a concorrência dos carros chineses importados.
Pensando no mercado externo, o câmbio a pesar de estar relativamente alto, ainda não está alinhado para facilitar o comércio com o exterior. Seria importante atingir o patamar de $5,50 para tal movimento se intensificar. A Gerdau, por exemplo, possui cerca de 75% de seu EBITDA nos EUA, devido a incentivos locais e melhores condições de produção, como infraestrutura.
Sucata deixou de ser passivo para virar ativo
A Sianfer disputa a liderança do mercado de sucata de aço inoxidável e ligas especiais no Brasil com a alemã Cronimet. As duas respondem juntas por cerca de 80% do setor, enquanto aproximadamente outros vinte recicladores dividem o restante. O país produz de 10 mil a 12 mil toneladas mensais desses materiais, das quais a Sianfer processa entre 3 mil e 4 mil.
Essa lógica de mercado é recente, segundo o diretor. A virada, quando a sucata passou a entrar no planejamento financeiro das empresas, aconteceu entre 20 e 30 anos atrás, por volta dos anos 2000. Antes disso, o material nem era separado por tipo.
O movimento aparece hoje em números: levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 57% das empresas industriais já adotam alguma prática de economia circular e 40% delas dizem ter tido retorno financeiro com isso. “A sucata começou a entrar de verdade na previsão financeira das empresas. Em algumas indústrias já existe até orçamento só para a receita gerada por esses materiais”, diz Lopez.
Segundo Lopez, o maior erro de quem vende sucata é simples: não saber do que o material é feito. Essa falta de informação reduz o valor do lote, porque obriga o comprador a trabalhar com mais margem de risco. Quando a classificação sai errada, o prejuízo pode ser pequeno ou virar um problema sério. Um lote de 100kg trocado entre dois tipos de aço inoxidável de preços diferentes, por exemplo, já gera perda de R$500,00. Em escala industrial, o risco cresce: contaminação por enxofre ou por fósforo acima do limite de 0,005% pode inutilizar uma corrida de produção de 30 toneladas numa siderúrgica, com prejuízo que passa fácil de R$100 mil.
Para reduzir esse risco, a Sianfer treina fornecedores industriais e pequenos recicladores parceiros do interior, que concentram a sucata de metalúrgicas menores antes de repassá-la à empresa. Lopez costuma usar um exemplo caseiro para explicar o ganho da segregação. Um fogão vendido inteiro, como sucata mista, vale menos do que a soma das suas partes. Desmontado, ele vira sucata de alumínio, ferro fundido, chapa de ferro e lã de vidro, cada material com comprador e preço próprios, sempre mais altos do que o conjunto.
Algumas indústrias já colocam esse ganho em prática de forma direta. Segundo Lopez, é comum destinar cerca de 10% do valor obtido com a venda da sucata aos próprios funcionários responsáveis pela triagem nas plantas. A lógica é elementar: quem separa direito passa a participar do resultado, e isso muda o comportamento no pátio, reduzindo a mistura de materiais que ainda acontece por falta de treinamento ou de interesse.
É esse tipo de especialização que explica a concentração do setor em poucos players. Segundo Lopez, o investimento para operar um pátio de reciclagem de porte médio a grande já funciona como barreira natural de entrada. Entre equipamentos, galpões e estrutura de processamento, o negócio raramente sai por menos de R$50 milhões. Por isso, cada reciclador tende a focar em um nicho; aço inoxidável, aço carbono, alumínio, cobre e ligas de cobre, em vez de tentar abraçar todo o portfólio de metais.
Esse grau de especialização também muda o momento em que a destinação do material deveria entrar no planejamento. Em processos de desmobilização de plantas industriais, o diretor defende que a decisão sobre para onde a sucata vai precisa ser pensada bem antes do desmonte, e não depois dele. Na Sianfer, como a empresa mantém relação constante com siderúrgicas específicas para cada tipo de liga, o destino de boa parte do material já está definido antes mesmo da compra do lote. Segundo Lopez, o desafio raramente está em saber para onde mandar a sucata, e sim em como desmontá-la e separá-la corretamente antes de tirá-la da planta.
O mercado de tungstênio ilustra bem como a geopolítica entra na conta. O metal, historicamente cotado perto de R$300,00 o quilo, passou a valer cerca de R$600,00 depois que começou a guerra entre Rússia e Ucrânia, puxado pelo uso do material na fabricação de munição balística.
Lopez comenta que o setor ainda tem espaço para avançar. A separação básica de metal, papel e orgânico já entrou na rotina de boa parte da indústria brasileira. A segregação por liga, que é onde está o maior ganho financeiro, continua restrita a poucas plantas. Fechar essa lacuna, segundo o diretor, depende menos de tecnologia e mais de treinamento, o mesmo gargalo que, segundo ele, ainda faz a indústria deixar dinheiro na caçamba todos os meses.



