A política de segurança pública que transformou Nayib Bukele em uma das principais referências da direita latino-americana começa a ganhar contornos cada vez mais claros na eleição brasileira de 2026.
Na noite desta segunda-feira (31), candidatos conservadores a deputado federal e estadual por São Paulo se reuniram em um jantar promovido pela Brasil Paralelo com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador e um dos principais nomes do governo Bukele na política de enfrentamento às gangues.

Entre os presentes estavam Adrilles Jorge, Rubinho Nunes, Silvio Navarro e Douglas Garcia, candidatos que, apesar de trajetórias distintas, convergem em uma das principais bandeiras desta eleição: uma política de segurança pública linha-dura, com endurecimento da legislação penal, fortalecimento das forças de segurança e enfrentamento direto às facções criminosas.
O encontro acontece depois de Villatoro se reunir também com nomes como Flávio Bolsonaro, presidenciável, Guilherme Derrite, candidato ao Senado por São Paulo, e Sergio Moro, candidato ao governo do Paraná.
E aí aparece um movimento que começa a ganhar espaço dentro da direita brasileira: a chamada “bukelização” do debate sobre segurança pública.
O termo faz referência ao presidente salvadorenho Nayib Bukele e à política adotada por seu governo contra organizações criminosas que durante décadas exerceram forte controle territorial e social em El Salvador. A lógica que inspira parte da direita brasileira é direta: criminosos perigosos devem estar atrás das grades.

Penitenciárias federais entram na discussão
No Brasil, um dado levado ao debate pelo candidato a deputado federal Silvio Navarro é utilizado por ele para ilustrar o contraste. Dados oficiais do Sisdepen referentes ao segundo semestre de 2025 apontam que as cinco penitenciárias federais de segurança máxima somavam 1.040 vagas, das quais 594 estavam ocupadas, deixando cerca de 43% da capacidade ociosa.
Para Navarro, o número reforça a necessidade de colocar o fim do desencarceramento como uma das bandeiras de sua atuação no Congresso.
“O Brasil tem 1.040 vagas nas cinco penitenciárias federais de segurança máxima e apenas 594 estão ocupadas. Quase 43% das vagas estão vazias. Enquanto El Salvador entendeu que criminoso perigoso tem que estar atrás das grades, o Brasil segue na direção oposta. Uma das minhas bandeiras em Brasília será enfrentar essa política de desencarceramento e acabar com benefícios que colocam criminosos perigosos de volta nas ruas. Segurança pública começa com uma regra simples: quem representa perigo para a sociedade não pode estar solto”, afirma Silvio Navarro, que também defende a adoção da prisão perpétua no Brasil.
O fim dos benefícios criminais também está entre as principais bandeiras de Adrilles Jorge, candidato a deputado federal. Adrilles defende penas efetivamente cumpridas e trabalho para presos durante o período de encarceramento.
“O Brasil precisa acabar com a indústria dos benefícios criminais. Bandido perigoso tem que estar preso, trabalhando e cumprindo integralmente a pena à qual foi condenado. Não faz sentido o Estado condenar alguém a décadas de prisão e, depois, criar sucessivos mecanismos para antecipar sua volta às ruas. A prioridade do sistema penal precisa voltar a ser a proteção da vítima e da sociedade”, afirma Adrilles.
Pena de morte entra no debate
Rubinho Nunes, candidato a deputado federal, e Douglas Garcia, candidato a deputado estadual, formam uma dobrada eleitoral e defendem uma medida ainda mais dura para determinados crimes hediondos: a adoção da pena de morte para autores de crimes como latrocínio, estupro e crimes sexuais contra crianças.
A Constituição brasileira atualmente proíbe a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada. Os candidatos defendem, contudo, que o ordenamento constitucional seja revisto para permitir a discussão e adoção da pena máxima para crimes de extrema gravidade.
“Eu defendo pena de morte para autores dos crimes mais bárbaros, como estupradores, pedófilos e latrocidas. Hoje a Constituição não permite essa pena, e é justamente por isso que defendo que o Brasil tenha coragem de discutir uma revisão constitucional. Há crimes de tamanha crueldade que a sociedade precisa discutir se seus autores ainda podem receber o direito de voltar ao convívio social. Essa discussão não pode continuar sendo tratada como tabu”, afirma Rubinho Nunes.
Douglas Garcia, que também leva para a campanha sua experiência de ter crescido em uma região periférica de São Paulo marcada pela presença do PCC, segue a mesma linha.
“Existem crimes que rompem qualquer limite de convivência em sociedade. Quem estupra, quem pratica latrocínio e quem comete crimes sexuais contra crianças precisa receber a punição máxima. Eu defendo a pena de morte para crimes hediondos dessa natureza e, como ela não é permitida pela Constituição atual, defendo uma revisão constitucional para que o povo brasileiro possa enfrentar esse debate. A Constituição existe para proteger a sociedade, não para impedir que ela endureça a resposta contra seus criminosos mais cruéis”, afirma Douglas Garcia.
Facções como organizações terroristas
Apesar das diferenças entre suas propostas, existe ainda uma bandeira que une os quatro candidatos: Adrilles Jorge, Rubinho Nunes, Silvio Navarro e Douglas Garcia defendem que as grandes facções criminosas brasileiras sejam classificadas como organizações terroristas.
A convergência ajuda a explicar o crescente interesse de setores da direita brasileira pela experiência salvadorenha. Mais do que uma fotografia de candidatos ao lado de uma autoridade estrangeira, o jantar promovido pela Brasil Paralelo expõe uma tendência da eleição de 2026: a segurança pública linha-dura começa a se consolidar como um dos principais pontos de união entre candidaturas conservadoras.
A “bukelização” brasileira não significa necessariamente reproduzir integralmente o modelo de El Salvador. Para esses candidatos, significa colocar no centro da discussão uma mudança de prioridade: fim do desencarceramento, redução de benefícios criminais, penas efetivamente cumpridas, maior respaldo às forças policiais, enfrentamento direto às facções e classificação das grandes organizações criminosas como terroristas.
No caso de Rubinho Nunes e Douglas Garcia, significa ir além e colocar na própria eleição um debate até então considerado tabu no país: se a Constituição brasileira deve ser revista para admitir a pena de morte para autores dos crimes mais graves.

O contraste que esses candidatos pretendem levar às urnas é resumido pela experiência que motivou o encontro: El Salvador decidiu apostar no encarceramento em massa e no endurecimento da política de segurança como estratégia de combate às gangues. No Brasil, Navarro usa a existência de vagas ociosas nas penitenciárias federais de segurança máxima como argumento para defender uma política penal mais rígida.
A “bukelização do Brasil”, portanto, pode se tornar mais do que um slogan de campanha. A aproximação de candidatos brasileiros com integrantes do governo salvadorenho mostra que o modelo de Bukele começa a entrar diretamente no debate eleitoral e pode se tornar uma das principais bandeiras da direita nas urnas em 2026.



