O nosso convidado desta edição do JBr Entrevista desta semana é o deputado federal Reginaldo Veras (PV). Eleito para a Câmara dos Deputados em 2022 com mais de 54 mil votos, sua trajetória política ganhou força bem antes, em 2018, quando foi eleito o terceiro distrital mais votado no Distrito Federal. Entre suas principais bandeiras está a educação, onde ficou conhecido por suas aulas de geopolítica e atualidades.
Na educação temos ao menos dois problemas: a falta de investimento e a falta de valorização dos profissionais. Como o Brasil, através do Congresso Nacional, pode melhorar essa situação?
Acho que dá para a gente sintetizar nas palavras de Darcy Ribeiro: a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto. Manter a educação em crise é um projeto de Estado que se tem desde o período colonial. Resumidamente, uma população alfabetizada, informada, educada e qualificada não atende aos interesses de uma elite dominante que sempre mandou neste país. É uma elite brasileira mesquinha e medíocre, que não quer ver o bem-estar social da coletividade. À medida que essa elite não investe plenamente na educação, é para manter essa classe sob controle. Imagine a escala 6×1 que estamos tentando votar no Congresso. Eu entendo isso como um resquício colonial de um país patriarcal controlado por essa mesma elite. Por que a pessoa se submete a uma escala dessas? Justamente pela falta de qualificação ligada à educação. A educação em sua plenitude, com investimento de qualidade, é libertadora, como disse Paulo Freire. Mas nem todos têm interesse nisso. No Brasil, muita gente acha que investir em educação é gasto. Não entendem como investimento de médio e longo prazo. Concluo com Brizola: “Se você acha que a educação custa caro, é porque não entende quanto custa a ignorância”.
O Congresso aprovou recentemente o projeto “Pé-de-Meia” para reduzir a evasão escolar. Qual é o retrato que fez com que o parlamento aprovasse esse programa?
As estatísticas mostram que milhões de jovens brasileiros são classificados como “nem-nem”: nem estudam, nem trabalham, na faixa dos 16 aos 24 anos. Eu gosto da expressão “sem-sem”: sem incentivo e sem capacidade de estudar. O Pé-de-Meia traz um elemento incentivador. A escola já não é atrativa pela falta de equipamentos tecnológicos, de infraestrutura e de metodologias novas. O aluno não vê ali a sua qualificação para o mercado de trabalho. Apesar das críticas, o resultado foi positivo. A evasão caiu significativamente. É um investimento. O que o aluno fará com o dinheiro quando terminar o ensino médio é da competência dele. Em Alagoas, onde foi implantado antes pelo hoje deputado Rafael Brito, as estatísticas mostram que a maior parte usa o dinheiro para tirar a carteira de motorista e ir trabalhar, seja de Uber ou iFood. Ou seja, acabou gerando desenvolvimento, emprego e renda.
Como o senhor avalia a educação hoje no país? O que dá para ser feito além do incentivo orçamentário?
O Congresso Nacional acabou de aprovar o Plano Nacional de Educação (PNE), que são as diretrizes para os próximos 10 anos. Fui membro da Comissão Especial e consegui colocar como objetivo a questão da sustentabilidade e da climatização das escolas. A grande vitória foi emplacar que, até o final do plano, 10% do PIB seja investido efetivamente em educação. No plano anterior, ficava por volta de 7,5%. Não é uma meta inatingível; é executável porque dissemos de onde virá o dinheiro, em boa medida vindo do pré-sal. Com planejamento, é possível transformar a educação através da melhoria da infraestrutura, qualificação continuada dos professores e novas metodologias tecnológicas.
Temos uma polarização muito grande e o Congresso Nacional parece vítima disso. Qual o sentimento dos deputados até a eleição?
O sentimento é ruim. Um país que se norteia pelos extremos é um país fadado ao fracasso. O extremo não gera consenso nem convergência. Infelizmente, estamos continuando uma caminhada ruim que se acelera com o processo eleitoral. De um lado o presidente Lula, do outro parece sedimentada a candidatura de Flávio Bolsonaro. Continua o “bolsonarismo contra o lulismo”. Isso é ruim porque não abre espaço para novas lideranças nem novas ideias. O Congresso Nacional não só sintetiza essa polarização, como a alimenta. É um congresso improdutivo, que funciona para poucos: ou a elite econômica ou a elite política. Para quem quer fazer política séria, com propostas, acaba sofrendo bastante. Mas não podemos deixar de resistir. O caminho deve ser o da moderação e do diálogo.
O senhor viu de perto a aprovação da dosimetria. Qual sua opinião e o que acredita que está por trás disso?
Eu votei contra a dosimetria e contra a derrubada do veto. Em determinadas situações, a punição deve ser pedagógica. O Brasil é um país movido a golpes desde a Proclamação da República. Punir com severidade quem tentou a ruptura democrática é essencial para eliminar essa ideia golpista da cultura política brasileira. Juscelino Kubitschek sofreu tentativas de golpe e anistiou os golpistas. O que aconteceu? Aqueles mesmos anistiados estavam envolvidos no golpe de 64. Temos que ser didáticos. Usaram a dosimetria com a falácia de salvar “velhinhos e velhinhas de Bíblia”, mas todos sabem quem queriam salvar: o “coronel” e o “capitão” frouxo que colocou o povo na frente enquanto ele ganhava o dele.
O senhor acha que há espaço no Brasil para um futuro golpe, já que voltamos à polarização?
Nunca podemos descartar essa ideia. O candidato que se apresenta agora como ala daquele que tentou dar o golpe já deixou claro em suas falas que, se for necessário um golpe na estrutura democrática, ele o faria. É bom ficarmos de olho.
Como está o clima sobre o “Caso Master” dentro do Congresso e como avalia as investigações da Polícia Federal?
A dosimetria não foi aprovada ao léu; houve um “acordão”. Aprova-se a dosimetria, rejeita-se a indicação de Jorge Messias para o Supremo e, em contrapartida, criam-se mecanismos para não instalar uma CPI. Quem tem medo que o escândalo Master venha à tona? A PF fez busca e apreensão na casa de Ciro Nogueira, um dos líderes do Centrão e ministro de Bolsonaro. Não importa se é de direita ou esquerda; quem tiver culpa que vá para a cadeia. Ressalto que a CPI não resolve isso; tornaram-se palcos de pirotecnia para a internet. Dou total autonomia à Polícia Federal para investigar e denunciar.
Como o senhor avalia as eleições de outubro, especialmente a situação nacional?
A eleição nacional será tão polarizada quanto a anterior. De um lado, Lula com 47% a 51% dos votos. Do outro, o candidato deles com a mesma faixa. Se o lado de lá lançar o “Vira-lata Caramelo”, ele será um grande concorrente, porque o povo quer votar no “lado de lá contra o lado de cá”.
E o senhor será candidato à reeleição?
Serei candidato à reeleição como deputado federal. Tivemos um mandato produtivo na defesa da educação e dos servidores. A ideia é continuar no Congresso agora e, em 2030, vir como candidato majoritário (governador ou senador).
O senhor chegou a lançar seu nome ao governo, mas voltou atrás. Como foi essa tratativa com o Leandro Grass (PT)?
O JBr deu o “furo” de que eu seria candidato. De fato, coloquei meu nome à disposição e pontuamos muito bem nas pesquisas. Mas, na política e na vida, o homem tem que se mover pela palavra. Eu já tinha dado minha palavra ao Leandro Grass de que, se ele fosse candidato, eu não seria. Honrando meu compromisso, retirei minha candidatura. Serei candidato a deputado federal e meu candidato a governador será o Leandro Grass.
Como o senhor avalia a chapa da federação PT, PV, PCdoB para as oito vagas do DF?
Na eleição passada fizemos três deputados. Imagino que o cenário se mantenha ou que possamos chegar a quatro nomes no campo da centro-esquerda. Nossa federação vem forte com nomes como o meu, o do ex-governador Agnelo e o da Ruth Venceremos. Se mantivermos a votação passada, temos chance de ampliar nossa bancada.
Para concluir, como o senhor vê o cenário político do DF hoje?
É um cenário aberto. Se fizéssemos um recorte hoje, o campo da direita ainda leva vantagem pelo resquício da onda bolsonarista, mas a direita está dispersa e brigando entre si. Quanto mais eles brigarem, melhor para a oposição. Acredito que conseguiremos eleger uma senadora, três a quatro deputados federais e o governador Leandro Grass.




