São 7h45 de uma quinta-feira normal de trabalho. Sylvinho já está na recepção do hotel onde mora em Tirana, pronto para tomar café da manhã. Pão integral, frutas e café para começar o dia, que tem previsto análises aprofundadas sobre a seleção das Ilhas Faroe.
A rotina do treinador brasileiro de 49 anos, há nove meses à frente da seleção albanesa, alterna entre dias no escritório, viagens pela Europa e trabalho no gramado.
A Albânia precisa de uma vitória nas duas últimas rodadas das eliminatórias da Euro 2024 para não depender de qualquer outro resultado e garantir pela segunda vez vaga na principal competição de seleções do continente. Diante da Moldávia, nesta sexta-feira (17), às 14h (de Brasília), fora de casa, um empate basta por conta do confronto direto; caso a classificação já não seja garantida, terão outra chance diante dos feroeses em Tirana, três dias depois – na segunda-feira 20, às 16h45 (de Brasília), com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.
Sylvinho foi a surpreendente escolha da federação no início deste ano, substituindo o experiente italiano Edoardo Reja. A estreia foi com derrota, diante da Polônia, em Varsóvia; único revés. Desde então, foram quatro vitórias e um empate nas eliminatórias, resultados que levaram ao atual bom momento.
A ESPN foi até Tirana para passar um dia inteiro com o ex-jogador de Corinthians, Arsenal-ING, Celta-ESP, Barcelona-ESP e Manchester City-ING, justamente uma semana antes da convocação para as duas partidas decisivas.
A mudança para a Albânia
Ao chegar no prédio da federação albanesa, no centro da cidade, Sylvinho cumprimenta todos em albanês. Ainda não domina o idioma local, mas já possui conhecimento suficiente para ser agradável com todos ao redor. O ex-treinador de Lyon e Corinthians é poliglota, conversa fluentemente em português, italiano, espanhol e inglês.
A Albânia, localizada nos Balcãs, é um país com forte influência da Itália, e no caso específico da seleção, ainda mais. As últimas três comissões técnicas foram italianas, incluindo a passagem de Christian Panucci entre 2017 e 2019. Sylvinho trabalhou como assistente técnico de Roberto Mancini na seleção italiana por dois anos.
Toda essa curiosidade linguística foi decisiva para o acerto. “O presidente (Armand Duka) estava em Milão (Itália) e através de uma pessoa me convidou para jantar. Eu estava morando no Porto (Portugal), com minha família, fui até Milão e jantamos. Tivemos uma boa aproximação, uma boa conversa. Eu não esperava, porque me preparei para falar em inglês e a conversa foi em italiano. Depois fui entendendo mais durante esse processo de aproximação, entre sete e dez dias, que na federação se falava inglês e italiano”, explicou o brasileiro à reportagem.
Desde o primeiro momento, Sylvinho já pensava em se mudar para Tirana, cidade com 900 mil habitantes e menor do que a Zona Leste da cidade de São Paulo, onde se tornou jogador pelo Corinthians. Seus filhos já estão na faculdade e a esposa seguiu morando em Porto.
Entendia ser fundamental viver o dia a dia do país e da própria federação para mergulhar totalmente no que era uma nova realidade para ele e também para seu assistente técnico, Doriva.
O ex-volante de São Paulo, Porto-POR, Sampdoria-ITA, Middlesbrough-ING, e companheiro de Sylvinho no Celta-ESP, já havia trabalhado com ele no Corinthians. Nem toda comissão técnica da seleção albanesa é fixa, mas a dupla brasileira é a base de tudo.
Calmo e tranquilo, Doriva é o oposto de Sylvinho no comportamento. “A gente se equilibra bem. O Sylvio é mais agitado, uma pessoa muito trabalhadora, muito pró-ativa, então acabo compensando. Calma é uma palavra que eu uso bastante. O Sylvio pensa à frente e, muitas vezes, eu faço o contraponto, falo ‘calma, vai dar certo, vamos fazer isso’. Quando recebi o convite do Sylvio, fiquei muito feliz e prontamente disse que gostaria de trabalhar com ele, um trabalhador nato.”
Doriva vive no mesmo hotel onde está Sylvinho, bem próximo à região central da cidade e ao lado de um grande parque. Algumas vezes, costumam caminhar até a federação, mas o trajeto quase sempre é feito em carro.
A rotina na federação
Logo pela manhã, após mais alguns cafés, Sylvinho se ajeita em sua sala e começa a analisar as fichas de todos os jogadores que estão na ‘waiting list’ (lista de espera, na tradução livre) da próxima Data Fifa. Um por um, checa a minutagem dos últimos jogos disputados por seus clubes.
Algo muito mais pessoal com o objetivo de estar totalmente atualizado sobre seus atletas, já que o analista de vídeo italiano Alarico Marco Rossi é a mente por trás de todos os dados levantados pela federação albanesa.
Na sala ao lado, Alarico já prepara sua pasta com todas as anotações possíveis sobre os adversários da Albânia e os atletas adversários. Do outro lado da mesa está o analista português Rui Pedro Vieira de Souza, que assistiu às últimas partidas da Moldávia e das Ilhas Faroe e também trouxe seus relatórios.
O primeiro jogo a assistir será Polônia x Ilhas Faroe. A gravação é em câmera wide, que mostra todo o gramado e a movimentação dos atletas em campo – com e sem a bola. Não há locução ou som ambiente, o vídeo é acompanhado em total silêncio, quebrado pelos comentários do treinador e de seus analistas. Situações de vantagem numérica no ataque feroês e o comportamento defensivo da equipe são cuidadosamente analisados.
Sylvinho senta na ponta da mesa, bem de frente para a televisão. No seu lado esquerdo está Doriva, atento a todos os detalhes do jogo; à direita, Ervin Bulku, técnico da seleção sub-19, que já comandou a principal de maneira interina e se tornou um interlocutor extremamente importante para a dupla brasileira no relacionamento com os jogadores albaneses.
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Os primeiros contatos com os jogadores
A carreira de Sylvinho é marcada pelos grandes mercados da Europa. A decisão de se mudar para Tirana surpreendeu o presidente da federação, Armand Duka, mas foi determinante para o treinador conhecer melhor os jogadores com os quais trabalharia.
A partir da base de dados da entidade, do trabalho de seus analistas, das constantes viagens nos primeiros meses de 2023 e das reuniões com os atletas, o treinador entendeu com quem contaria. Há exemplos práticos, de jogadores ‘descobertos’ através desse processo.
“O Asani é resultado de uma busca incessante que tínhamos por um canhoto, lado contrário. Independente do sistema tático, era uma característica que queríamos de um atleta canhoto por aquele setor. Tínhamos visto um ou outro, até que surgiu o nome dele. Um atleta que passou alguns anos na Albânia, teve uma passagem pela Hungria e estava na Coreia do Sul. Começamos a analisar e logo nos primeiros jogos, vendo os conceitos de como ele jogava, parte ofensiva, defensiva, gostamos muito e não hesitamos em trazê-lo”, detalhou Sylvinho.
Depois do vídeo vem a primeira pausa, já na hora do almoço. Diferentemente do que vivia em São Paulo, por exemplo, quando treinava o Corinthians, Sylvinho passeia pelas ruas de Tirana tranquilamente, sem qualquer abordagem de torcedores e muito menos cobranças por resultados.
A caminhada da federação até o restaurante de frutos do mar escolhido por Bulku para o almoço é curta, cerca de dez minutos entre lojas e casas em um ambiente pacato. O futebol fica de lado no papo, que aborda amenidades e as mais variadas curiosidades entre as nacionalidades presentes na mesa – albaneses, italianos e brasileiros.
A própria localização do novo centro de treinamentos foi algo que chamou atenção. “Essa cidade esportiva me assustou, porque estamos muito acostumados com CTs fora da cidade, lugares tranquilos, longe de tudo, e estávamos para inaugurar o CT dentro da cidade. Há muito tempo a seleção não treinava aqui, e fui bem orientado pelas pessoas locais para não ter medo, não me preocupar, porque é uma cultura diferente. E foi isso que ocorreu. Obviamente, é uma cidade esportiva que está longe de ser uma das melhores do mundo, mas supre todas nossas necessidades”, contou o técnico.
O idioma e a política
Mais alguns cafés no retorno e outros vídeos para análise. A parede da sala de reuniões é repleta de quadros com indicações de convocações, jogadores observados e esquemas táticos adversários. As conversas são majoritariamente em italiano, mas fluem para o português naturalmente e em inglês quando necessário.
O albanês é uma língua indo-europeia, mas muito diferente das citadas. Apesar da cordialidade aprendida por Sylvinho no idioma local, é impossível passar suas ideias aos jogadores em albanês. No dia a dia com os atletas em semanas de treinos, as conversas são nos mais variados idiomas.
No entanto, Sylvinho faz questão que a preleção, última conversa antes do jogo, seja no idioma dos jogadores. É quando Ervin Bulku entra em ação novamente, traduzindo as falas em italiano do treinador brasileiro para o albanês.
Há ainda toda complexidade geopolítica da região, que Sylvinho, Doriva e também Pablo Zabaleta, ex-lateral do Manchester City e integrante da comissão técnica nos períodos de treinos, precisaram aprender.
“Sobretudo, quando falamos de uma seleção, ela tem laços importantes (com a política). Você representa uma nação. O primeiro lugar no qual me coloco é como treinador de uma seleção, e o resultado que preciso trazer é sempre para o atleta, a vitória, o esporte. Porém, precisamos entender a complexidade quando falamos em uma seleção que tem uma nação por trás; e toda nação é regida por políticos”, destacou Sylvinho.
A Albânia faz fronteira terrestre com Grécia, Macedônia do Norte, Montenegro e Kosovo. Com este último mantém laços culturais fortíssimos e oposição total à política da Sérvia, que jamais reconheceu a independência do território, motivo de disputa entre os povos. “Sobre os conflitos daqui, tivemos que ter o entendimento quando chegamos. Fomos entender, conversar com as pessoas locais, de onde podemos trazer atletas, como se sentem… Faz parte”, seguiu o comandante da seleção.
O aprendizado e o trabalho constante
O debate na sala é sobre a forma de jogo das Ilhas Faroe na partida contra a Albânia. Apesar da fragilidade técnica do adversário, alguns acreditam que os feroeses vão sair mais para o jogo diante dos albaneses.
A tese defendida, diante dos vídeos e das exposições táticas apresentadas, é de que pela maior história no futebol que possuem Polônia e República Tcheca, os feroeses se comportaram muito defensivamente. Em Tirana, acredita-se, vão se arriscar mais.
Sylvinho ouve tudo e dá espaço para todos integrantes se manifestarem. A troca de ideias é algo muito marcante na reunião. Algo que Tite, com quem Sylvinho trabalhou na seleção brasileira entre 2016 e 2019, também sempre fez muito.
O sol do outono em Tirana já começa a baixar, assim como a temperatura. O treinador brasileiro encerra o expediente ao lado de Doriva e segue para o hotel. Pensa que acabou a jornada?
Aos 49 anos, Sylvinho mantém ótima forma física graças aos treinos na academia e às corridas feitas na pista de atletismo do arborizado Grand Park, na capital albanesa. A pista de atletismo no local é dividida por Sylvinho e muitas crianças de uma escola de atletismo.
Foram cerca de 40 minutos de treino, alternando tiros de 800 metros. A noite já tomara conta de Tirana, e Sylvinho, finalmente, voltaria para ‘casa’.
À noite, já após passar pelo quarto, se reúne novamente com Doriva. Mais trabalho? De certa maneira, sim, mas com um belo filé de carne grelhado acompanhado de legumes para assistirem a um jogo da Copa da Romênia pela televisão. Em ação, um potencial convocado para a seleção albanesa.
Sylvinho tem contrato até julho de 2024 e dias históricos pela frente com a Albânia.








