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terça-feira, agosto 18, 2026

Casas Bahia se prendeu muito ao modelo de lojas físicas, diz Tozzi


As Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial, conforme fato relevante divulgado na noite de domingo (16). A decisão foi tomada em razão da piora das condições financeiras da companhia, que enfrenta um cenário de juros elevados, crédito restritivo e endividamento crescente.

Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, avalia que os fatores macroeconômicos, embora relevantes, afetam igualmente todos os concorrentes do setor. Para ela, o problema central da Casas Bahia é estrutural.

“No caso específico das Casas Bahia, o modelo de negócio se afastou do modelo dos principais concorrentes”, afirmou.

Segundo a especialista, a empresa ficou excessivamente ancorada no formato de loja física, cresceu pouco nos canais digitais e inovou de forma insuficiente.

Entre a recuperação extrajudicial anunciada em abril de 2024, no valor de R$ 4,1 bilhões, e o atual pedido de recuperação judicial, Tozzi observa que houve pouca transformação no modelo de negócio.

“Você viu, sim, muitas iniciativas de redução de custo, você viu iniciativas no modelo de logística, mas a agressividade necessária para que o modelo se encaixasse nos trilhos não existiu”, disse.

A especialista destacou ainda que, em abril de 2025, as notícias sobre a companhia giravam em torno de disputas no Conselho de Administração e discussões sobre a conversão de debêntures em participação acionária.

A companhia fechou quase 300 lojas e demitiu cerca de 2 mil pessoas na semana anterior ao pedido de recuperação judicial. Para Ana Paula Tozzi, essas medidas, embora necessárias, não serão suficientes para reverter a situação.

“Não será suficiente você fechar lojas e fazer demissões para buscar esse fôlego. A empresa vai precisar ter fôlego para investir no seu processo de transformação de negócio”, afirmou.

A especialista acrescentou que as demissões realizadas antes do pedido de recuperação judicial geram dívidas trabalhistas passíveis de parcelamento, o que pode ter sido parte da estratégia da companhia para organizar seu fluxo de obrigações.

Crediário e o desafio do capital de giro

Outro ponto destacado por Ana Paula Tozzi é a questão do capital de giro e do estoque. Enquanto o setor de varejo de eletroeletrônicos costuma operar com 90 dias de estoque, a Casas Bahia estaria trabalhando com apenas 75 dias, o que dificulta o giro das mercadorias e a geração de caixa.

“É preciso girar o varejo para poder, desse giro, trazer capital de giro livre para que possa continuar investindo e continuar crescendo”, explicou.

A especialista também abordou o movimento de retorno ao crédito direto ao consumidor, por meio de crediários próprios, observado no setor varejista como um todo.

Embora possa parecer uma solução, Ana Paula Tozzi alerta que essa prática implica taxas de juros mais elevadas do que as praticadas pelo sistema financeiro, o que penaliza especialmente as camadas mais pobres da população.

“O varejo deixa de trabalhar com o seu modelo raiz e passa, na verdade, a virar uma financeira”, concluiu, ressaltando que a competência de conceder crédito é do setor bancário, não do varejo.



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