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domingo, julho 5, 2026

Morre Marcelly Malta, pioneira na defesa de travestis no RS


CRISTINA CAMARGO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Nascida em Mato Leitão, no interior do Rio Grande do Sul, Marcelly Malta Lisboa teve a ajuda de freiras franciscanas para estudar e trabalhar como enfermeira na Santa Casa de Porto Alegre, para onde foi na adolescência. Era um sonho de infância, inspirado pelo contato com uma tia que tinha a mesma profissão e estava sempre de branco.

Além dos plantões hospitalares, Marcelly foi prostituta nas ruas e boates da capital gaúcha, onde conheceu travestis glamourosas e assistiu shows espetaculares, mas também enfrentou a violência e a discriminação.

Foi o início da trajetória da ativista pioneira do movimento trans e travesti no Rio Grande do Sul, morta neste sábado (4), aos 75 anos, em Porto Alegre. A morte foi informada pela ONG Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, que ela fundou no final da década de 1990.

“Marcelly foi uma mulher travesti de coragem, força e dignidade. Uma guerreira incansável na luta pelos direitos da população trans e travesti do Brasil, que deixou sua marca por meio da resistência, do acolhimento e da defesa de uma sociedade mais justa e igualitária”, diz a nota divulgada pela ong.

Em 2011, aos 60 anos, quando presidia o Conselho Municipal de Direitos Humanos da Prefeitura de Porto Alegre, ela conseguiu juridicamente o direito de retificar o nome no registro civil, uma conquista que abriu portas para outras pessoas trans do país inteiro fazerem o mesmo.

Sete anos depois, em 2018, o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu o direito de transexuais adequarem sua identidade de gênero e nome sem a necessidade de cirurgia de redesignação sexual.

“Parece que nasci novamente. Fico muito orgulhosa de poder saber que daqui para frente outras travestis poderão evitar constrangimentos e humilhações e conseguirão o mesmo direito de alterar seus prenomes nas identidades”, ela disse na época.

Na trajetória de Marcelly há passagens pela Europa, nos anos 1990, como trabalhadora sexual. “Não foi o estado que me deu o que tenho, foi a prostituição”, ela afirmou há um ano ao TravaTalk Podcast. Na mesma entrevista, relatou atos de violência em prisões na capital gaúcha, onde foi encarcerada durante a ditadura militar sob a acusação de vadiagem.

De volta ao Brasil após o período europeu, a profissional de saúde tornou-se influente entre as travestis em Porto Alegre por ter acesso a informações de prevenção e tratamento contra a Aids. A partir da atuação no Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids), construiu a liderança histórica no movimento.

Várias organizações LGBTQIA+ lamentaram neste sábado a morte e destacaram o pioneirismo da travesti.
“Marcelly abriu caminhos, enfrentou violências, ajudou a organizar uma geração de ativistas e fez da própria vida um instrumento de afirmação, memória e luta”, declarou, em nota, a Parada Livre de Porto Alegre.

Segundo Toni Reis, diretor da Aliança Nacional LGBTI, Marcelly seguia atuando ao defender que envelhecer com dignidade é um direito de todas as pessoas.

“Sua existência valeu a pena. Valeu cada viagem, cada palestra, cada diálogo, cada formação com profissionais da segurança pública, cada palavra dita em defesa da dignidade humana”, ele disse.

A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) contou que a ativista teve uma reunião recente com sua equipe para desenvolver ações pela empregabilidade trans.

“Sobrevivente da ditadura, uma das pioneiras na militância contra o hiv/aids e dos movimentos trans no Brasil, Marcelly deixa um legado que será lembrado por décadas”.

Marcelly chegou a dar aulas de formação para agentes e delegados da Polícia Civil, a convite do governo estadual. Na entrevista ao podcast, ela aconselhou a população travesti e trans mais jovem a estudar e ficou emocionada ao contar sobre as homenagens recebidas durante a vida.

O velório será neste domingo (5), das 7h às 12h, na Casa dos Conselhos de Porto Alegre.



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