O convidado desta edição do JBr Entrevista é o ex-interventor da Segurança Pública do Distrito Federal, após o 8 de janeiro de 2023 e pré-candidato ao Palácio do Buriti Ricardo Cappelli. Em conversa com o Jornal de Brasília, o ex-secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) falou sobre suas pretensões eleitorais, sobre a construção de alianças e como resolveria o caso do Banco de Brasília (BRB), caso estivesse no comando do governo local.
Como foi sua chegada à política?
Trabalho como gestor público há 26 anos e já ocupei vários cargos em vários níveis de governo. Já fui secretário municipal, secretário estadual, secretário nacional e secretário-executivo. Fui ministro interino, então tenho muita experiência na administração pública. Fui secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública e fui Interventor Federal da Segurança Pública do Distrito Federal. Nasci no Rio de Janeiro, mas estou em Brasília há 23 anos. Cheguei aqui em 2003.
Como foi o caminho para entrar na política do DF?
Nunca tinha feito política aqui no Distrito Federal; sou o único dos pré-candidatos que nunca disputou nenhuma eleição no DF. Estou nesta caminhada construindo uma pré-candidatura ao governo do Distrito Federal para que a nossa capital volte a sonhar. Minha filha mais velha, de 15 anos, já é nascida e criada aqui. Este foi o lugar que escolhi para construir minha família e viver. É uma cidade maravilhosa, mas que pode ser muito melhor. A gente precisa resgatar a ousadia, o sonho e a coragem de Juscelino Kubitschek para que o Distrito Federal volte a inspirar os seus moradores e todo o Brasil, voltando a ser um exemplo.
O senhor contou um pouco da história do 8 de janeiro em um livro. Fale um pouco sobre o assunto.
Sim, eu escrevi um livro chamado O 8 de Janeiro que o Brasil não Viu, onde conto todos os bastidores e tudo o que aconteceu na inédita intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal, naquele momento muito difícil para a democracia brasileira. A gestão daquela crise exigiu de mim muita coragem e firmeza, mas, ao mesmo tempo, muito equilíbrio. O meu papel era resolver os problemas sem aumentar a temperatura. Pelo contrário, minha missão era resolver a questão, estabilizar as forças de segurança e baixar a temperatura para ajudar a estabilizar a democracia brasileira. E foi isso que fiz ao longo dos 23 dias da intervenção federal: agir com sobriedade e firmeza, fazendo o que tinha que ser feito, mas com bastante equilíbrio. É isso que eu conto no livro, que está disponível nas plataformas digitais e nas livrarias.
O você pode falar daquele dia?
Eu fui o primeiro a chegar ao Quartel-General do Exército na noite do dia 8 com a missão de desmontar aquele acampamento que defendia a ruptura da Constituição e do Estado Democrático de Direito. Então, foram diálogos muito duros e difíceis. Nós negociamos o desmonte do acampamento para o dia seguinte, às 6h30 da manhã, e tivemos que preparar tudo.
Houve resistência para que acontecesse no mesmo dia?
Sim, houve uma tensão grande porque existia a avaliação de que, se desmontássemos no mesmo dia, poderia haver um enfrentamento. São muitos detalhes, tudo muito difícil. Eu praticamente não dormi da noite do dia 8 para o dia 9, comandando e coordenando toda aquela operação. É tanta coisa que rendeu um livro, que fiz questão de registrar para a história para que jamais aconteça novamente. Eu sempre digo que o Brasil, graças a Deus, é um país livre e democrático. Você pode votar na esquerda, no centro ou na direita, mas não é razoável querer quebrar tudo e agredir pessoas só porque o seu candidato perdeu as eleições. Tivemos 44 policiais militares feridos na noite do dia 8. Isso não é razoável, não é aceitável.
Qual foi o seu sentimento durante o diálogo com os generais?
Foi um diálogo muito duro, mas sempre respeitoso. Ser duro não significa ser mal-educado ou desrespeitoso. Foram diálogos difíceis porque eu tinha a missão de efetuar a prisão daqueles que tinham depredado os prédios públicos e de desmontar o acampamento. Então foi negociado, e fizemos na manhã do dia seguinte, às 6h30. Retiramos cerca de 1.500 pessoas do acampamento e — o que é mais importante, sem nenhum incidente, sem enfrentamento e sem nenhum ferido. Isso foi muito importante.
O senhor, como secretário interventor, protegeu muito a corporação da Polícia Militar, deixando o comando como responsável e não à corporação.
Quanto à Polícia Militar, quando digo que agi com firmeza e equilíbrio, é exatamente isso. Eu afastei os comandantes da PM que estavam sob suspeita, mas, ao mesmo tempo, defendi a Polícia Militar do Distrito Federal, porque não se pode confundir a atitude de alguns com uma corporação de 11 mil homens e mulheres. É uma instituição bicentenária, que veio do Rio de Janeiro, da antiga capital, e que tem uma série de serviços prestados ao povo brasileiro e ao país. Então, ao mesmo tempo em que afastei os comandantes suspeitos de envolvimento, eu ponderei: o CPF deles é diferente do CNPJ da corporação. Foi por isso que, depois de ter saído da intervenção federal, recebi com muita honra a Medalha Tiradentes, concedida pelo comando da Polícia Militar. É a maior comenda da PMDF. Assim como também ganhei a Medalha Dom Pedro II, a maior comenda do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. E ganhei quando já não era mais interventor; já tinha saído e eles não tinham mais nenhum vínculo de subordinação à minha autoridade, mas fizeram questão de me conceder essas duas medalhas que muito me honram.
Tendo passado esses 23 dias lá dentro e agora sendo pré-candidato ao governo, como avalia a segurança do Distrito Federal?
Existem algumas questões objetivas. Primeiro, a Polícia Militar do Distrito Federal já chegou a ter 17 ou 18 mil homens; hoje tem pouco mais de 11 mil. A população cresceu e o efetivo foi reduzido, portanto há menos policiais nas ruas. Precisamos contratar mais policiais militares para voltarmos a ter, por exemplo, aquela dupla de policiais que fazia a ronda nas quadras, o policiamento “Cosme e Damião”. Temos que voltar com esse modelo, com mais homens e mulheres na PM. Também precisamos retornar com a Rocam e com as Rondas Ostensivas Candangas para aumentar o policiamento e dar mais sensação de segurança. Precisamos enfrentar outras questões de frente. A primeira é a máfia da grilagem, que está atuando nas cidades do Distrito Federal sem nenhum combate planejado e organizado. A grilagem vitimiza pessoas e amplia a desordem no planejamento urbano. Também precisamos enfrentar a questão do feminicídio. Temos, a cada 15 dias, uma mulher assassinada no Distrito Federal pelo simples fato de ser mulher. Isso se enfrenta com planejamento e inteligência.
O senhor vê outros problemas?
Existe uma questão fundamental que influencia muito na sensação de insegurança: o Distrito Federal hoje tem mais de 3 mil pessoas em situação de rua. É a maior população de rua proporcional do Brasil. Isso amplia muito a sensação de insegurança porque essas pessoas estão na rua, muitas vezes, envolvidas com questões de saúde mental ou dependência química, e acabam cometendo pequenos delitos, furtos e assaltos. É preciso enfrentar o aumento da população em situação de rua. E como se enfrenta isso? O governo criou os Centros POP, mas esses locais apenas oferecem acolhimento, comida e banho. Não é assim que se resolve o problema. É preciso ter equipes multidisciplinares que compreendam por que aquela pessoa está na rua e desenvolvam uma ação efetiva para tirá-la dessa condição. Não adianta só dar comida e banho se você não emancipa a pessoa. Inclusive, há muita gente que veio de outros estados e está em situação de rua aqui, e que precisa de apoio para voltar para o seu estado de origem. Tudo isso exige gestão e planejamento para que a população volte a ter a sensação de segurança de antes.
Como você lida com a desconfiança que as redes sociais levantaram contra o senhor e os seus adversários lhe chamando de forasteiro?
As redes sociais não colocaram isso sobre mim; quem coloca são os adversários políticos. E eles têm razão, eu concordo com eles quando me chamam de forasteiro. Porque eu sou um forasteiro da política tradicional do Distrito Federal. Eu sou de fora dessas panelas políticas apodrecidas do DF. Sou o único que nunca foi candidato a nada aqui, sou a única novidade da eleição. É por isso que eles ficam incomodados e me chamam de forasteiro.
Por que eles fazem isso?
Eles fazem isso porque não conhecem o Distrito Federal. Há 17 meses, desde janeiro de 2025, eu saio de casa uma semana por mês e vou morar em uma cidade diferente do DF, dormindo na casa das pessoas que me recebem — um dia na casa de um, outro dia na casa de outro. Eu desafio qualquer um dos outros pré-candidatos a conhecer o DF como eu conheço. Fiquei uma semana em Samambaia e, lá, conheci pessoas vindas de oito cidades diferentes do Maranhão: de Caxias, de Codó, de São Luís, de Viana, de Barra do Corda, de Timon. Então, o Distrito Federal, claro que já tem a geração nascida aqui, mas abriga maranhenses, baianos, mineiros, goianos, cariocas, gaúchos. Tem gente do Brasil inteiro. Esta cidade foi idealizada por Juscelino para ser a capital de todos os brasileiros. Se tem uma coisa que não combina com o Distrito Federal, é a xenofobia. Aqui é a cidade de todos os brasileiros. Quem fala isso de mim, na verdade, está com medo do forasteiro.
Caso o senhor venha a governar no ano que vem, terá de lidar com a crise do Banco de Brasília. Qual é a sua solução para o BRB?
Eu fui o primeiro a denunciar o escândalo do Banco Master e BRB em março do ano passado. Eu furei a imprensa, inclusive, que não falava disso. Fui o primeiro a falar e o primeiro a ser processado pelo Banco Master e pelo Daniel Vorcaro aqui na Justiça do Distrito Federal por calúnia e difamação. Eu ganhei em primeira instância. Eles recorreram para o TJDFT e eu ganhei de 3 a 0 deles. Então eu sei do que estou falando. O que aconteceu com o BRB é o maior escândalo da história do sistema financeiro nacional. No governo Ibaneis e Celina Leão, pegaram um banco público, saudável, com 60 anos de história, e o envolveram em desvios e fraudes bilionárias. As transações entre o BRB e o Master são da ordem de R$ 30 bilhões. Desse montante, pelo menos R$ 12 bilhões foram desviados para comprar papéis podres e fraudados. Até hoje ninguém sabe o tamanho real do rombo no BRB; a imprensa não sabe. O atual presidente do BRB falou recentemente que é de R$ 8,8 bilhões. Só que não dá para confiar no que ele diz, porque cadê o balanço? O último balanço publicado pelo BRB é do segundo trimestre de 2025 (abril, maio e junho de 2025). Por que não publicam o balanço do banco? O prazo era 31 de março e não publicaram. O BRB está pagando uma multa diária de R$ 50 mil à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) porque está desde o dia 31 de março sem publicar o balanço. Qual é o tamanho do rombo e da crise de liquidez? Ninguém sabe.
O que o senhor acha do empréstimo que o GDF quer contrair?
Querem pegar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões, assinando um acordo draconiano de ajuste fiscal para o Distrito Federal pagar. A governadora vem a público dizer que o banco vai pagar o empréstimo, mas não vai. Sabe de quanto foi o repasse de dividendos do BRB para o governo do Distrito Federal nos últimos anos? Da ordem de R$ 50 milhões por ano. O BRB sadio passava 50 milhões por ano. Quantos anos vai levar para pagar R$ 15 bilhões? Porque pega R$ 6,6 bilhões e, com os juros, esse empréstimo vai passar de R$ 15 bilhões. Com R$ 50 milhões por ano, vai levar cerca de 50 anos para pagar.
E qual a solução?
A solução é a seguinte: o dinheiro desviado do BRB não evaporou, está na conta de alguém e foi parar em algum lugar. A governadora, ao invés de ir ao Supremo Tribunal Federal (STF) fazer um acordo para empurrar a conta da roubalheira do BRB para o povo do Distrito Federal pagar, deveria estar peticionando ao ministro André Mendonça, que é o relator do caso Master no STF. Ela deveria exigir que, caso a delação premiada do Daniel Vorcaro seja aceita — e ele está falando em devolver R$ 60 bilhões —, pelo menos 15 bilhões voltem imediatamente para os cofres do BRB, de onde esse dinheiro jamais deveria ter saído. Além disso, é preciso fazer uma profunda reestruturação no BRB. O que o BRB está fazendo no Tocantins, em São Paulo ou em estados do Nordeste? O que o BRB está fazendo patrocinando Fórmula 1 ou o campeonato de vela de Dubai? O BRB foi criado para ser o BNDES do Distrito Federal, um banco de desenvolvimento da cidade. Eles afundaram o banco em fraudes bilionárias e desvirtuaram completamente a sua missão. Eles emprestam dinheiro do BRB para o Ibaneis Rocha, por exemplo, comprar um apartamento de luxo em um hotel super luxuoso em São Paulo. Ele financiou mais de 80% da compra desse imóvel com recursos do BRB e uma taxa de juros mínima, de 7% ou 8% ao ano. Já para o pequeno e médio empreendedor do Distrito Federal, que vai pegar um financiamento para ampliar a padaria, o salão de beleza ou para capital de giro, sabe quanto são os juros? Mais de 50% ao ano. Que banco público é esse? O BRBestá confiscando neste momento, de forma ilegal, 100% do salário de servidores superendividados. Todo dia recebo relatos de servidores desesperados. Isso é ilegal. Existe a Lei do Superendividamento, que determina que não se pode confiscar mais de 30% do salário. Mas o BRB está fazendo isso. Então, a saída é recuperar o dinheiro desviado, fazer uma profunda reestruturação e aplicar um choque de gestão no banco.
O senhor, como pré-candidato, como está a construção de alianças? Com quem tem conversado para fechar uma chapa?
A gente conversa com todo mundo. Converso com o PDT, com o PT, com o PSol, com o PSDB e com o Solidariedade. Neste momento, tirando o campo do atual governo do Distrito Federal, nenhum dos outros pré-candidatos tem aliados definidos; está todo mundo na fase das conversas. As convenções vão até o dia 5 de agosto, então muita coisa vai acontecer até lá. Tenha a certeza de que nós vamos colocar a nossa chapa de pé. Defendemos uma composição com o máximo de amplitude possível; eu defendo uma frente ampla porque a esquerda sozinha não ganha eleição no Distrito Federal.
O senhor acredita que ainda é possível fazer uma aliança com o PT, já que o Geraldo Magela também está disputando a vaga de cabeça de chapa?
Nós conversamos com o PT e eu tenho confiança nisso.
Qual é o partido que está mais próximo de fechar com o senhor?
Essa questão de “mais próximo” não funciona assim. Nós temos conversado com todos, mas não há nada definido. Se você divulgar o casamento antes do dia, dá azar. Estamos conversando; hoje mesmo tivemos conversas com várias pessoas. Volto a dizer: até o dia 5 de agosto muita coisa vai acontecer. O que posso afirmar é que o PSB terá candidato ao governo do Distrito Federal. O bloco também terá candidatos ao Senado — não necessariamente do PSB, mas queremos montar a chapa com as duas vagas para o Senado e a de vice com aliados, se for possível. Caso o cenário caminhe para uma fragmentação com muitos candidatos e não seja possível ter muitas alianças, o PSB lançará candidatura própria ao Senado também, se necessário for.
Qual é o perfil de vice que o senhor almeja hoje?
Acho que tem que ser um nome que amplie o nosso arco. O nosso desafio aqui é ampliar. Não adianta ficar falando só para a esquerda; temos que falar para o centro e até para a centro-direita não bolsonarista que faz oposição ao governo atual. Nós precisamos conversar com todos. Precisamos conversar com a Paula Belmonte, com o ex-senador Reguffe, defendo uma frente ampla.




