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segunda-feira, abril 20, 2026

Amanhã será um outro dia


selo brasília 66 anos (1)

Em 2026, no 66º aniversário da cidade, Brasília tem mais a comemorar do que simplesmente a sua fundação. Há 40 anos, pela primeira vez, a cidade – e os arredores – iria às urnas para eleger a si mesma. Inaugurada em 1960, participou timidamente da votação presidencial daquele ano, como uma criança sentada à mesa dos adultos. E por outros 26 anos esteve à espera, apenas como anfitriã de representantes das outras unidades federadas. Na Assembleia Constituinte que se formaria a partir do pleito estava a chance de conquistar a sonhada autonomia candanga. Em série de reportagens para celebrar mais um ano da capital, o Jornal de Brasília mostra que 1986 foi o ponto de virada da representação política do Distrito Federal. 

Para quem viveu o período, as eleições de 1986 demoraram a chegar. Era um pleito esperado por longos 21 anos em todo o país, que viveu sob as amarras de um regime ditatorial a partir de 1964, e este só se encerraria em 1985. A partir da posse do vice-presidente eleito em colégio eleitoral – ou seja, em eleição indireta -, José Sarney (MDB), o Estado começou a se transfigurar, cumprindo a transição lenta e gradual prevista ainda na década de 1970 pelos generais ditadores. O sistema bipartidário fora extinto já em 1982, e as eleições seguintes seriam uma sopa de letrinhas eleitorais. 

Da oposição, que se aglutinava em torno do Movimento Democrático Brasileiro, surgiram diversos partidos – o que o regime considerava positivo, pois fragmentaria a oposição. O pensamento era correto: em 1982, as 22 unidades federadas com direito ao voto inscreveram 87 candidatos, sendo 22 do Partido da Democracia Social (PDS), o herdeiro da Arena – a sigla do regime militar – e outros 22 do PMDB – legenda que atuava como oposição consentida à Ditadura. O Partido dos Trabalhadores (PT) concorreu em 21 estados, o Partido Democrático Trabalhista (PDT), em 12, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em 10, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Ainda assim, 1982 representou um golpe duro na Ditadura: os quase 49 milhões de eleitores que foram às urnas elegeram 12 governadores de oposição, sendo 11 do PMDB – incluindo o futuro presidente eleito Tancredo Neves, em Minas Gerais – e o gaúcho Leonel Brizola, do PDT, no Rio. Para o Legislativo nacional, a oposição abocanhou 254 das 504 vagas, entre Câmara e Senado. Essa vitória da oposição ao regime pavimentou o caminho para a eleição de Tancredo Neves e José Sarney, e a promulgação de leis que derrubaram “o entulho autoritário”. 

Uma dessas normas 6foi a Emenda Constitucional nº 26, de 1985, que estabeleceu a realização de eleições naquele mesmo ano, pleito que formaria os Legislativos nacional e estaduais, além de eleger deputados para a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte. Pouco depois, a Lei 7.943/86 balizaria o pleito, marcado para 15 de novembro daquele mesmo ano, inclusive ao traçar as exigências para a candidatura  – como o período de desincompatibilização – ou para a formação de coligações partidárias. 

E Brasília, claro, estava no meio. Pela primeira vez, a cidade erigida para sediar os poderes da República estaria representada através da eleição de oito nomes para a Casa baixa, enquanto três vagas se abriram para o Senado. 

Estratégias da ilegalidade

Não é, exatamente, como se o povo do DF jamais houvesse votado. Em eleições anteriores, residentes de Brasília e arredores votaram nas eleições de outros estados, desde que o título eleitoral estivesse registrado na unidade federada de origem. A eleição “remota” foi criada por lei em 1974, mas apenas para o Legislativo nacional. Em 1981, nova norma alterava o regramento para permitir também votos para os governos estaduais e assembleias legislativas. 

Outra alternativa era a usada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Ainda na ilegalidade – a sigla continuaria proibida pelos militares até 1985 -, militantes brigavam para recuperar a agremiação. “A gente orientava que as pessoas voltassem às cidades de origem e votassem em candidatos indicados pelo partido”, aponta Augusto Carvalho, à época uma das lideranças sindicais e estudantis que lutavam para reerguer o “partidão”. “Eu e mais um grupo fizemos isso em Patos de Minas”, lembra o político. 

Apesar de classificar este período como “um bom treinamento” para as campanhas políticas, seria só dali a 12 anos que o povo do Distrito Federal poderia votar nos arredores de casa. 

A maldição do milagre 

Em outras searas, o Brasil sucumbia ao ricocheteio do período conhecido como “milagre econômico”, uma época de alto crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), sobretudo baseado na atuação do estado como mola da economia, mas submetido a alterações arbitrárias dos governos militares, à péssima distribuição entre a população e ao mascaramento do processo inflacionário. Desta forma, os anos 1980, “a década perdida”, como dizem especialistas, começaram com a Economia brasileira em convulsão: recessão, hiperinflação e sucessivos planos econômicos infrutíferos. 

O caos nas finanças gerava insegurança e aumentava a fragilidade do tecido social, mesmo em meio a celebrações pelo que se anunciava como o fim do regime militar. A psicanalista Yesmin Sarkis relembra o período. “A inflação era grande ao ponto de termos reajustes semestrais nos salários. Nos três primeiros meses, eu sabia que precisava economizar o máximo possível para poder comer nos outros três”, comenta. O aumento do custo de vida não era páreo para a recomposição salarial. 

Só no governo Sarney, iniciado em 1985, foram três planos econômicos até a realização das eleições, em novembro de 1986, e um lançado menos de uma semana após o pleito. É nesse cenário que começa a primeira campanha eleitoral da história do novo Distrito Federal. 

POVO EM FESTA: DEMOCRACIA SE FAZ NA RUA 

Sendo bem generoso, os cidadãos e cidadãs mais longevos em Brasília moravam na cidade ou nos arredores há apenas 30 anos, se contarmos que os primeiros candangos aqui chegaram em 1956. A primeira eleição com Brasília como cidade pronta veio em 1960, mas apenas para a Presidência. Naquele ano, o marechal Henrique Lott, que garantira a posse de Juscelino Kubitschek em 1955, aproveitou-se do apelo que tinha o construtor da cidade – de quem foi ministro da Guerra – e venceu na capital com 52,8% dos 19.775 votos possíveis. A nível nacional, porém, Lott perdeu para Jânio Quadros, que renunciaria pouco depois. 

Em 1986, uma população que beirava 1,6 milhão de habitantes viveu de perto uma campanha eleitoral, a primeira que podia chamar de sua. O governo de José Aparecido instalou estruturas cilíndricas pelas cidades, os chamados “pirulitos”, para fornecer um espaço para propagandas eleitorais de rua – os lambe-lambes. Em junho daquele ano, a campanha começou. Findo o prazo para registro de candidaturas, Brasília iria às urnas para escolher três senadores dentre 69 candidatos, enquanto 172 postulantes à Câmara disputavam oito vagas. 

A cidade vibrava. “Minhas filhas curtiram muito esse período”, conta Yesmin Sarkis. À época, era servidora da Fundação Educacional em Nova Bethânia, Minas Gerais, mas ainda morava em Brasília. “Saíamos de um período de restrições de ideias. As pessoas estavam alegres, queriam participar. Tinham as desavenças, mas não importava, porque havia a certeza de que aquilo poderia transformar as coisas. Minha filha mais velha tinha oito anos e ela e os colegas aproveitaram bastante”, conta. A crise apertava, mas o vislumbre de Democracia levava o sorriso aos rostos, e as pessoas, às ruas. 

Houve grande produção de santinhos, adesivos, camisetas e todos os acessórios que, até hoje, lotam o DF em período eleitoral, além de passeatas e carreatas que mobilizavam o eleitorado. De acordo com reportagem publicada no Jornal de Brasília após o pleito, o Sistema de Limpeza Urbana (SLU) sofreu para limpar a cidade. Segundo a reportagem, foram “um milhão de litros d’água, 30 mil quilos de detergente em pó, cerca de 10 mil ferramentas entre pás, enxadas e carros-gerais” na missão de limpar o DF após sua primeira campanha eleitoral. 

Nos jornais, as notícias se espremiam entre propagandas de candidatos e a agenda de quem brigava por cada um dos 690.364 votos que garantiriam uma vaga na Constituinte – e, por consequência, na História. Em 26 anos, Brasília aumentou em quase 35 vezes o número de votantes. 

Boca a boca e improvisos

Era muita gente na disputa. Gente como Valmir Campelo Bezerra, Maria de Lourdes Abadia e Augusto Carvalho, de origens diferentes, mas de objetivos minimamente parecidos. Campelo, que batiza o Bezerrão, estádio do Gama, lembra que a campanha foi feita “à moda antiga”, no corpo a corpo, contando com as teias sociais de apoiadores nas cidades-satélites (hoje, Regiões Administrativas). “Eu fazia campanha de porta em porta. Fazia reunião de multiplicadores: pedia a um casal para juntar pessoas, tinha duas ou três reuniões com grupos diferentes”, explica Campelo. 

Ex-administrador de Brazlândia, Gama e Taguatinga, ele contou com as obras tocadas durante as gestões para angariar votos, usando também o desejo de autonomia que os habitantes do Planalto Central pediam. Até 1988, quando da promulgação da Constituição Cidadã, o Distrito Federal dependia de uma comissão (em geral subordinada ao Executivo) para levar seus problemas rotineiros à Casa Alta. “O povo precisava de voz. A comissão de representantes junto ao Senado não tinha a vivência, não sabia dos problemas de Brasília. Muitos [dos componentes] sequer tinham ido às cidades-satélites”, relembra. 

A “mãe” de Ceilândia 

Maria de Lourdes Abadia entrou na política pela assistência social. Logo depois de formada, foi contratada pelo GDF para mapear as invasões, num momento em que Brasília se preocupava em expandir-se em território. Entre poeira, demolições de barraco e muitos caminhões, virou uma das primeiras autoridades em Ceilândia. Foi assim, inclusive, que se tornou a administradora mais longeva da cidade-satélite. “O Elmo Serejo reuniu lideranças e perguntou quem deveria administrar a nova cidade. Todo mundo queria, até um momento em que uma das lideranças disse que, ‘ruim por ruim, , que já gosta de nós’”, sorri a ex-governadora. 

Abadia foi a primeira mulher a administrar uma cidade-satélite no DF e ficou no comando da Região Administrativa entre 1975 e 1986, quando se desincompatibilizou para a disputa das eleições. “O Marco Maciel me convidou para criarmos o PFL em Brasília”, relembra. “Minha campanha começou ali. Comecei a rodar Ceilândia conversando com as pessoas, mostrando o que fiz como administradora e o que poderia fazer como deputada”, conta Abadia. “Alguns apoiadores compraram camisetas para pintar com meu nome e o número”, lembra. “Minha campanha foi basicamente em Ceilândia”, crava a ex-governadora. 

Maria de Lourdes também virou nome de estádio. No coração de Ceilândia, ao lado da Feira da Guariroba, o tradicional Abadião, inaugurado em 1974, é o primeiro estádio de futebol do mundo com nome feminino. 

Tática de guerrilha em busca de votos

Dentre os constituintes ainda vivos, Augusto Carvalho foi o que mais sofreu com a Ditadura Militar. Antes mesmo de se identificar comunista, em 1972, teve diversos contratempos para assumir cargo no Banco do Brasil, cuja aprovação em concurso o tirou da pacata Patos de Minas e o trouxe à capital. Finalmente aceito, passou a frequentar a Universidade de Brasília (UnB) mesmo antes de lá ingressar, em 1974, para o curso de Sociologia. Organizou-se nos grêmios estudantis paralelamente à atuação sindical junto aos colegas de trabalho. No início dos anos 1980, chegou à presidência do Sindicato dos Bancários e ganhou ainda mais força política. 

De certa forma, os mais de 60 anos de ilegalidade do Partido Comunista Brasileiro (PCB) o preparam para uma campanha ombro a ombro. “Eu e o Carlos Alberto [candidato ao Senado] distribuíamos panfletos, íamos a debates, estávamos sempre de peito aberto para o diálogo”, comenta. “Fizemos uma campanha de guerrilha, com eventos culturais para promover as candidaturas, reuniões com a militância”, explica. O tal fantasma do comunismo, essencial para justificar a longevidade do regime militar, também se apresentava. “Muita gente gostava do meu discurso e dizia que ia votar em mim, mas quando eu falava que era do Partido Comunista, era um ‘ai, meu Deus’”, rememora, entre sorrisos. No vislumbre de democracia que se abria, o Brasil inteiro queria votar – e ser votado. 

AMANHÃ: o primeiro voto de uma jovem cidade



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