O presidente americano, Donald Trump, utilizou seu discurso na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22), para comparar os cartéis de drogas ao grupo terrorista Estado Islâmico, defendendo o emprego de força militar contra essas organizações na América Latina. O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna comenta o tema ao CNN Prime Time.
Segundo Trump, os cartéis são “o Estado Islâmico do hemisfério ocidental” e, por isso, “devem ser assassinados”.
Lourival avaliou que a comparação feita por Trump serve como justificativa narrativa para uma projeção do poder militar dos Estados Unidos na região.
“Esse é o grande vetor da narrativa de Donald Trump para justificar ações militares, uma projeção do poder militar dos Estados Unidos aqui na América Latina”, afirmou Sant’Anna.
Estratégia militar voltada para o hemisfério ocidental
Segundo Sant’Anna, a postura de Trump em relação à América Latina está formalizada em documentos oficiais. “Isso é parte da estratégia dos Estados Unidos, que foi até formalizada no ano passado, estratégia de defesa e estratégia de segurança nacional”, explicou o analista.
Nesses documentos, os Estados Unidos declararam a intenção de concentrar seu poderio militar no hemisfério ocidental, chegando a deslocar porta-aviões e outras embarcações para a região, retirando forças do Indo-Pacífico e do Oriente Médio.
Sant’Anna também destacou uma contradição na abordagem de Trump: a maior parte das mortes por overdose nos Estados Unidos — cerca de 80 mil das 100 mil anuais — é causada por opioides sintéticos, como o fentanil, cujos insumos vêm da China e são processados no México.
Apenas um quinto das overdoses é provocado pela cocaína proveniente da América do Sul.
“No entanto, ele está concentrando muito mais as energias militares sobretudo contra os países aqui da América do Sul, do que propriamente contra esse tráfico que de fato causou uma epidemia de opioides sintéticos nos Estados Unidos”, disse o analista.
Escudo das Américas sanciona organizações brasileiras
Logo após o discurso de Trump na ONU, a iniciativa conhecida como Escudo das Américas — que reúne 19 países do hemisfério ocidental — anunciou sanções contra 24 organizações consideradas narcoterroristas. Entre elas estão o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.
As punições incluem congelamento de ativos, restrições de visto e imigração, além de responsabilidade criminal para quem fornecer apoio material ou logístico a essas organizações.
A declaração, assinada por 15 dos 19 países participantes, prevê ainda o reforço da cooperação por meio do compartilhamento de informações e do acesso a tecnologias de segurança.
Brasil fora do Escudo das Américas enfrenta pressão crescente
O Brasil não integra o Escudo das Américas, o que, segundo Sant’Anna, representa um isolamento significativo do país em termos de políticas públicas. “Isso é muito significativo para o Brasil e isola bastante o Brasil em termos de políticas públicas”, avaliou o analista.
Ele ressaltou que a divergência não significa que o governo brasileiro apoia o crime organizado, mas sim que os meios escolhidos para combatê-lo são diferentes dos adotados pelos demais países da região.
Com as sanções agora adotadas de forma multilateral, Sant’Anna alertou que o Brasil terá de lidar com uma nova sobrecarga em diversas instâncias, incluindo autoridades diplomáticas, de segurança policial, de fronteira, de vistos e, principalmente, financeiras e bancárias, que passarão a receber medidas dirigidas contra as organizações criminosas brasileiras listadas pelo Escudo das Américas.



